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CAROLINE

PEPATO,

ARTICULADORA DE TALENTOS DO SERTANEJO

Uma entrevista com a empresária, editora, ‘olheira’ e parceira estratégica da Universal Music Publishing, casada com um dos maiores compositores do gênero, Júnior Pepato

por_Alessandro Soler de_São Paulo

Uma entrevista com a empresária, editora, ‘olheira’ e parceira estratégica da Universal Music Publishing, casada com um dos maiores compositores do gênero, Júnior Pepato

por_Alessandro Soler de_São Paulo

Caroline Pepato compartilha sobrenome, sonhos e projeto com o marido, Júnior Pepato, um dos maiores compositores do sertanejo. Mas seus voos são bem próprios, e são altos. Dona de uma trajetória bem-sucedida na gestão de carreiras e na descoberta de talentos nesse gênero mainstream que é um case em si, ela assinou há alguns meses uma parceria estratégica com a Universal Music Publishing (UMP), para atuar como “olheira” de talentos e reforçar a ponte entre a editora e novos nomes, novos negócios, da música.

fotos_Divulgação

Paranaense radicado em Goiás, como Caroline, o compositor Junior Pepato é autor de alguns dos maiores sucessos da música brasileira recente, incluindo canções como "A Maior Saudade", de Henrique & Juliano, "Dois Tristes", de Simone Mendes, e "Eu Gosto Assim", gravada por Gustavo Mioto e Mari Fernandez — obras que ajudaram a transformá-lo num dos nomes mais relevantes da música sertaneja contemporânea, acumulando bilhões de streams.

Ano passado, ele próprio assinou contrato com a Universal, abrindo o caminho para que, mais recentemente, Caroline, através da sua editora, F6K Music, firmasse a parceria estratégica com a gigante internacional.

Mulher num gênero que só nos últimos anos vem se abrindo mais aos talentos femininos na criação e no palco — com um gap ainda maior nos bastidores —, Caroline entendeu que fazer-se visível é chave para ter seus méritos reconhecidos.

“Abrir mais portas passa por criar oportunidades, compartilhar conhecimento e dar visibilidade às mulheres que já estão construindo trajetórias relevantes no mercado. Quanto mais referências femininas tivermos ocupando esses espaços, mais natural será para as próximas gerações enxergarem essas possibilidades”, ela afirma nesta conversa com a Revista, em que aborda as oportunidades para o sertanejo, inclusive lá fora.

Ela está na linha de frente de mais uma tentativa de internacionalização de um gênero que, por anos, foi tido como “excessivamente” brasileiro para triunfar no exterior.

“Tenho vivido de perto essa busca por oportunidades fora do país. Recentemente, participei de um projeto desenvolvido junto ao estúdio do produtor Eduardo Pepato, que levou grandes obras conhecidas do público brasileiro para um novo contexto internacional. Músicas interpretadas por artistas como Marília Mendonça e Henrique & Juliano ganharam versões em uma roupagem romântica/latina para o artista (cubano) Chris Lahera”, descreve.

Confira na entrevista.

Como têm sido esses primeiros meses de parceria estratégica com a UMP?

CAROLINE PEPATO: Tem sido uma experiência muito positiva. A UMP tem uma estrutura global extremamente sólida e, ao mesmo tempo, uma equipe focada em se aproximar cada vez mais dos autores e do mercado. Nesses primeiros meses, tenho conseguido contribuir principalmente através da minha rede de relacionamento, da aproximação entre autores e editora e da criação de conexões que talvez não acontecessem de forma tão natural e estratégica sem essa troca entre o olhar da Universal e o meu trabalho de scouting.

Como é exatamente esse trabalho de 'olheira' (scout) que você faz para a editora?

Passa pela avaliação de repertório, análise de catálogo e acompanhamento da carreira dos autores. Busco entender o momento profissional de cada compositor e identificar quando uma parceria com a editora pode fortalecer aquele repertório, abrir novas oportunidades e gerar mais valor para a carreira do autor. Também acompanho os movimentos do mercado, as tendências e as conexões que podem fortalecer tanto os autores quanto o catálogo da editora.

Essa parceria veio na esteira do contrato do Júnior com a UMP. Soa a estratégia bem definida de carreira dos dois. Vocês pensam sobre isso? Sobre aonde querem chegar?

Existe, sim, uma visão de longo prazo. Quando buscamos conectar o Júnior Pepato a uma major como a Universal, já existia um desejo muito claro de sair da nossa bolha. Ele já construiu uma trajetória extremamente sólida como compositor, se tornando um dos principais autores do Brasil e alcançando resultados que superaram muitos dos sonhos que tínhamos quando começamos. O movimento veio da vontade de ampliar horizontes. Acredito que chega um momento da carreira em que o reconhecimento, o legado e o impacto passam a ser tão importantes quanto os números. Daqui a 10 ou 20 anos, imagino o Júnior continuando a fazer aquilo que sempre fez de forma extraordinária: compondo, criando repertório e sendo reconhecido pelo impacto de suas obras. Já eu me vejo cada vez mais conectada ao desenvolvimento de autores, à construção de oportunidades e ao fortalecimento das conexões dentro do mercado.

Chega um momento da carreira em que o reconhecimento, o legado e o impacto passam a ser tão importantes quanto os números.

Caroline Pepato

Como se sente sendo mulher num segmento onde as lideranças femininas ainda são escassas?

O sertanejo, assim como toda a indústria da música, vem passando por uma transformação importante. Hoje já vemos mulheres ocupando posições de liderança em editoras, gravadoras, escritórios, gestão de carreira e diversas outras áreas estratégicas do mercado. Sempre procurei focar no trabalho, na construção de relacionamentos e na entrega de resultados. Foi assim que construí minha trajetória e continuo seguindo esse caminho. Mais recentemente, também tive a felicidade de conhecer profissionais que admiro muito, como Mila Ventura, head de Comunicação da UBC, e Adriana Ramos, presidente da Universal Music Publishing Brasil. Através de conversas, trocas e exemplos, elas me incentivaram a ocupar mais espaços, compartilhar experiências e entender que também existe valor em mostrar a trajetória que construí. Abrir mais portas passa por criar oportunidades, compartilhar conhecimento e dar visibilidade às mulheres que já estão construindo trajetórias relevantes no mercado. Quanto mais referências femininas tivermos ocupando esses espaços, mais natural será para as próximas gerações enxergarem essas possibilidades.

Como foi o seu primeiro envolvimento profissional com o sertanejo?

Com o marido, Júnior Pepato

Aconteceu através da convivência com o Júnior. Mas a música sertaneja já fazia parte da minha vida muito antes disso. Venho de uma família musical e tenho lembranças muito bonitas da infância. Quase todos os fins de semana, meu avô se reunia com os amigos para tocar sanfona, enquanto nós passávamos horas dançando e aproveitando aqueles momentos. A música sempre esteve presente na minha vida, mas de uma forma muito natural, como parte das minhas memórias e da convivência com as pessoas que eu amava. Minha entrada no mercado aconteceu a partir da necessidade de cuidar do que era mais valioso para nós naquele momento: o trabalho e o catálogo do Júnior. Conforme a carreira dele crescia, eu sentia que precisava entender melhor esse universo, acompanhar mais de perto os contratos, os direitos autorais, as oportunidades de longo prazo. Durante anos, minha energia esteve concentrada em cuidar dos nossos próprios projetos. Foi justamente essa experiência que me deu segurança para, mais tarde, ampliar minha atuação, trabalhar com outros autores e enxergar novas oportunidades dentro do mercado. Hoje tenho certeza de que estou exatamente onde deveria estar.

Até onde o mercado sertanejo pode chegar? Tem capacidade de se expandir para além das fronteiras do país?

Acredito que sim. O sertanejo já provou diversas vezes sua capacidade de evolução. O gênero deixou de ser regional, tornou-se nacional e passou a ocupar um espaço extremamente relevante dentro da indústria da música. Tenho vivido de perto essa busca por oportunidades fora do país. Recentemente, participei de um projeto desenvolvido junto ao estúdio do produtor Eduardo Pepato, que levou grandes obras conhecidas do público brasileiro para um novo contexto internacional. Músicas interpretadas por artistas como Marília Mendonça e Henrique & Juliano ganharam versões em uma roupagem romântica/latina para o artista (cubano) Chris Lahera. Mais do que exportar um gênero, estamos exportando canções, histórias e emoções que conseguem se conectar com diferentes culturas.

A IA tem trazido desafios para sua carreira, pessoalmente?

A inteligência artificial já faz parte da nossa realidade, e todos nós teremos que aprender a conviver com ela. O principal desafio, na minha opinião, é a regulamentação. Especialmente no mercado musical, precisamos encontrar formas justas de reconhecer e remunerar os criadores cujas obras ajudaram a treinar essas ferramentas. Ao mesmo tempo, a IA pode ser uma ferramenta de apoio importante em diversos processos criativos. Mas a essência de uma música continua vindo das experiências, das emoções e da verdade de quem a escreve. Quem trabalha com repertório já consegue identificar quando uma música foi feita por um aplicativo desse tipo. Falta emoção, falta verdade e falta aquele sentimento que normalmente nasce de uma experiência humana real. A tecnologia continuará evoluindo, mas acredito que a capacidade humana de emocionar continuará sendo o elemento mais valioso da música.

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