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45 ANOS

IMPREVISÍVEIS

Com o álbum ‘Agudo Grave’, produzido por Maria Beraldo, a cantautora fluminense segue na pegada que trilhou desde sempre: fugir do óbvio

por_Fabiane Pereira do_Rio de Janeiro

Com o álbum ‘Agudo Grave’, produzido por Maria Beraldo, a cantautora fluminense segue na pegada que trilhou desde sempre: fugir do óbvio

por_Fabiane Pereira do_Rio de Janeiro

Quem acompanha a trajetória de Zélia Duncan já aprendeu uma coisa importante: previsibilidade nunca foi o território dela. Ao longo de 45 anos de carreira, celebrados em 2026, Zélia construiu uma das discografias mais inquietas e sofisticadas da música brasileira contemporânea. Um percurso no qual pop radiofônico, samba, folk, MPB, rock, vanguarda paulista e canção experimental convivem sem hierarquia nem medo de colisão.

Seu novo disco, “Agudo Grave”, lançado em maio, sintetiza a inquietude e a imprevisibilidade que a marcam. Os primeiros versos do álbum funcionam como chave de leitura da obra: “sinto agudo e canto grave”.

Não é qualquer artista que consegue transformar a própria voz — literal e simbolicamente — em território de reflexão e reinvenção. O disco provoca uma sensação curiosa e rara: soa novo, mas familiar. Como se Zélia estivesse, ao mesmo tempo, expandindo seus próprios limites e reencontrando algo muito essencial da artista que sempre foi.

PRODUÇÃO DE LUXO

Produzido e arranjado por Maria Beraldo — uma das artistas mais inventivas de sua geração —, o trabalho nasce do encontro entre maturidade e risco. O resultado é um disco cheio de texturas, silêncios e pequenas surpresas sonoras. Há canções que começam quase minimalistas e terminam gigantes. Outras parecem suspensas no ar. Em muitos momentos, os arranjos recusam soluções óbvias e preferem caminhos mais sensoriais.

Nada ali soa automático, e existe um motivo para isso. Zélia segue empenhada em não se repetir.

“Eu nunca tentei me imitar. Tentei ter uma marca”, disse à Revista. “Se você me vir subindo num palco, fazendo um show novo ou alguma coisa nova, pode ter certeza: estou com alguma coisa que acho que vale a pena na mão. Porque eu não faço à toa.

Desde o sucesso massivo de “Catedral”, nos anos 1990, Zélia escolheu caminhar na contramão da acomodação. Enquanto parte da indústria esperava repetições de fórmulas, ela foi experimentar. E isso inclui discos dedicados à vanguarda paulista, mergulhos no samba, trabalhos intimistas, álbuns em parceria e projetos difíceis de categorizar.

“Agudo Grave” é um retrato bonito da liberdade artística madura. Não há ali nenhuma tentativa desesperada de soar jovem, moderna ou alinhada às tendências do algoritmo. O disco simplesmente ‘é’.

fotos_Mauro Restiffe
fotos_Mauro Restiffe

CARÁTER HUMANO

Esse trabalho também impressiona por outro motivo: é um álbum humano num tempo cada vez mais dominado por algoritmos, inteligência artificial, excesso de estímulo e relações mediadas por tela. Zélia defende aquilo que ainda nos mantém vivos emocionalmente, e isso aparece na faixa “E aí, IA?”, uma parceria dela com Alberto Continentino, em que questiona a tecnologia sem cair em moralismos fáceis. A música prefere outro caminho: reafirma a beleza da dúvida, da imperfeição.

“A gente corre o risco de chegar num futuro em que as pessoas não saibam mais se uma música foi feita por alguém de carne e osso ou por um amontoado de fios”, refletiu. “Eu quero a humanidade radical. Quero pensar com os meus miolos.”

Quando encontrei a Maria (Beraldo), senti imediatamente que ela tinha alguma coisa a ver comigo.

Zélia Duncan

Zélia também reserva espaço para a delicadeza, o humor, o amor sereno. Faixas como “Importante”, “Calmo” e “Resolvidinho” falam de relações afetivas menos ansiosas, menos performáticas, mais construídas na permanência.

Um aspecto interessante do disco é a maneira como a artista aproxima aproximando universos distintos. Isso aparece em canções como “Pontes no Ar” e “Maravilha Disforme”, esta uma parceria com Lenine que, talvez, esteja entre as músicas mais bonitas lançadas recentemente no país.

O álbum inteiro faz pensar na ideia de movimento. Não à toa, Zélia já definiu sua própria discografia como “uma montanha-russa por escolha”:

“Eu preciso dessa vontade para seguir”, explicou. “Senão eu acho chato. Eu faço música, antes de mais nada, por puro egoísmo. Faço para eu viver bem com a minha música.”

“Hoje eu quero um amor calmo”, disse, ao comentar a faixa feita em parceria com Zeca Baleiro. “Mas também não estou morta, né? Ainda tem desejo, ainda tem vontade, ainda tem beijo na boca.”

NO CENTRO DE TUDO, A VOZ

Há momentos em que o álbum soa autobiográfico. Como em “Voz”, parceria com Maria Beraldo, uma espécie de oração íntima sobre corpo, memória, cicatriz e permanência. “Minha voz é hoje”, canta Zélia em mais um dos versos bonitos do álbum.

Durante a conversa, ela falou sobre como o tema da voz permeia sua vida inteira. “Eu fui uma menina com vergonha da minha voz. Depois tive câncer na tireoide justamente no lugar mais importante da minha vida. Então, esse assunto me atravessa de todas as maneiras possíveis.”

E talvez exista algo ainda mais simbólico no encontro com Maria Beraldo. Porque o disco está obviamente construído sobre contrastes: o grave de Zélia, o agudo de Maria; a experiência de uma artista com 45 anos de carreira encontrando uma compositora de outra geração sem qualquer medo de troca.

“Ela é o agudo do meu grave nesse disco”, definiu Zélia, que fala da parceira com emoção verdadeira. “Quero gente nova na minha vida. E, quando encontrei a Maria, senti imediatamente que ela tinha alguma coisa a ver comigo.”

“Agudo Grave” não é um álbum nostálgico nem um disco preocupado em provar relevância. Ele existe num outro lugar: o de uma artista madura que continua curiosa, aberta ao encontro e interessada em construir novas pontes.

Num mercado cada vez mais acelerado, descartável e ansioso por fórmulas, Zélia Duncan continua a fazer discos como quem escreve cartas demoradas para o mundo. Discos que não se esgotam na primeira audição porque exigem escuta, tempo e presença.

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