por_Ana Gabriela Dickstein • do_Rio de Janeiro
Prestes a completar 80 anos de vida, em julho, João Bosco tem cumprido uma agenda intensa iniciada com shows e homenagens nos Estados Unidos, a preparação de dois álbuns e a expectativa pela turnê no Brasil, que circulará por cidades como Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. O movimento de fôlego é só mais um em meio a uma carreira prolífica, lapidada desde a infância em Ponte Nova, interior de Minas Gerais, passando por Ouro Preto, onde iniciou curso de Engenharia, até chegar ao Rio de Janeiro, incentivado por Vinicius de Moraes.

João Bosco: dois álbuns e uma turnê para celebrar a vida
Desde então, a trajetória superlativa em quantidade e maestria ofereceu ao público sínteses musicais particulares, frutos brasileiros “do batuque e da sofisticação”, como ele resume nesta entrevista com a Revista.
Se, nos últimos anos, o artista tem consolidado a parceria com o filho, Francisco Bosco – como no celebrado álbum “Boca Cheia de Frutas” (2024), em que se aproxima das lutas e sonoridades dos povos originários –, foi ao lado de Aldir Blanc que ele deu corpo a verdadeiros clássicos nacionais, como “Kid Cavaquinho”, “O Bêbado e a Equilibrista” e “Corsário”.
Além de relembrar a simbiose criativa com o parceiro (“Como se fossemos uma só pessoa”, define), João Bosco conversa sobre as comemorações pelos 80 anos, revisita suas antropofágicas referências e reflete sobre sua relação com o tempo.
REVISTA UBC: Sua celebração de 80 anos de vida começou com uma turnê pelos EUA. Essa escolha permitiu que você pudesse revisitar sua trajetória com um certo olhar estrangeiro?
Ser brasileiro é ser miscigenado. Os encontros aqui aconteceram, produziram frutos, fecundaram.”
João BoscoJOÃO BOSCO: Tenho ido aos Estados Unidos de maneira periódica, praticamente de dois em dois anos. Já há algum tempo faço uma semana de shows em Nova York, no clube de jazz Birdland. Sempre que vou, aproveito para tocar em outros lugares, como Princeton, Boston, Miami. Pelo fato de eu ir com uma certa frequência, o próprio gerente acabou colocando um retrato meu na parede. É uma homenagem muito significativa ser reconhecido dessa maneira em um clube de jazz, porque sou um músico brasileiro, e meu repertório tem muito a ver com o Brasil. Então, me convidaram para fazer esse início de celebrações por lá. Eu e meu quarteto (Ricardo Silveira na guitarra, Guto Wirtti no baixo e Kiko Freitas na bateria), com a participação da grande clarinetista Anat Cohen, que mora no Brooklyn e que já gravou comigo. Foram cerca de dez shows. Músicos brasileiros que moram em Nova York também fizeram uma espécie de homenagem, que se chamou Tributo a João Bosco. Antes, toquei no McCarter Theater, em Princeton. Queria muito conhecer a universidade. Eu e Aldir (Blanc) nos formamos na universidade, ele médico e eu engenheiro. Tinha muito interesse em conhecer o campus, onde estudaram grandes personalidades, como Albert Einstein e (Julius Robert) Oppenheimer. Fiquei muito emocionado de estar naqueles lugares. Lembrei dos meus tempos de Ouro Preto e de escola. Foi uma turnê muito bonita, repleta de boas vibrações. Chegar aos 80 anos e ver a música sendo celebrada dessa maneira é tudo o que a gente deseja.
Sua obra é carregada de referências, entre Dorival Caymmi, Clementina de Jesus, Moacir Santos, as raízes mineiras, a música árabe... mais recentemente, os cantos yanomami. Qual é a importância de se você se reconhecer parte dessa constelação?
Do ponto de vista da civilização, somos uma nação mestiça. E ser brasileiro é ser miscigenado. Os encontros aqui aconteceram, produziram frutos, fecundaram. Junto disso tem esse lado muito expressivo da questão antropofágica. É muito natural que nossa visão sobre as coisas seja genuinamente plural, heterogênea. Do canto da Clementina, da música de Pixinguinha, do piano de Ernesto Nazareth, de uma música formal baseada no folclore brasileiro. Somos do batuque e da sofisticação. Por isso a nossa música tem essa amplitude. Os compositores brasileiros têm o hábito de se expressar propondo vários caminhos. Sou brasileiro, corre nas minhas veias o sangue da pluralidade, antropofagicamente, dando a elas um sabor local. Com Aldir, fizemos um samba chamado “Dois Mil e Índio”: “Eu vou como eu vim / De chinelo, pareô, cocar / Guizo de arlequim”. Você tem tudo aí, inclusive o fraque do regente (“Eu vou de fraque sabendo”, diz um dos versos finais). Sempre tivemos a consciência disso.
Ao mesmo tempo, você se tornou um artista personalíssimo, de acento único dentro da música brasileira, que mistura o compositor, o violonista brasileiro, o cantor que ecoa ancestralidade e barroco. Como se desenvolveu essa linguagem tão própria?
Isso também é uma característica do brasileiro. É muito intuitivo. Está dentro de mim, apenas coloco pra fora. Fizemos todas essas músicas ao longo desses anos e nunca nos perguntamos como. A memória é muito grande. O que você traz dentro de si de informação, de audição, você professa de uma maneira muito peculiar. Dorival Caymmi tem uma importância fundamental. João Gilberto foi outro que conseguiu achar um jeito de se expressar dentro daquela modernidade da bossa nova. A gente começa a prestar atenção nessas pessoas e vai intuitivamente procurando o caminho.
Continuando a pensar no Brasil, canções como “O Bêbado e A Equilibrista”, “O Mestre-Sala dos Mares” e “Boca Cheia de Frutas” colaboram para uma construção muito ampla do país. Qual é a sua cartilha do futuro para possíveis brasis?
Andei ao lado de grandes brasileiros e compartilhei com eles esse Brasil. Com Aldir Blanc, fomos somando as nossas brasilidades. O Aldir falava muito sobre a brasilidade do nosso trabalho, construída de forma compartilhada, de uma maneira muito especial. Entre nós, houve uma certa fusão, que formou uma unidade muito expressiva, como se fossemos uma só pessoa. E o resultado dessa unidade é também peculiar. Não acontece sempre, não é comum.
Como surgiu essa afinidade rara?
O acaso nos aproximou. Conheci alguém em Ouro Preto (Pedro Lourenço Gomes), que me ouviu tocando num botequim de madrugada. Essa pessoa, que era amiga do Aldir, garantiu a ele que o parceiro dele estava lá em Ouro Preto e o levou para lá. Esse acaso tem uma relevância que nos faz pensar que é um pouco mais do que o acaso. No mundo árabe tem a expressão “maktub”, que significa “estava escrito”. É um acaso que se confunde com alguma coisa que tinha que ser.

Sua obra tem demarcações que se relacionam com as suas parcerias, seja com Aldir, seja com seu filho, Francisco Bosco. Mas também com outros compositores, como José Carlos Capinan, Antonio Cicero e Waly Salomão. É bom mudar de fase? Ou dói?
As duas coisas. O que é bom sempre tem um preço. Você não sai de uma coisa pra outra sem sentir a dor disso. Nós (refere-se a Aldir) fizemos isso num certo período, tanto ele quanto eu. Depois vieram parcerias com Francisco Bosco, Abel Silva, Capinan (como “Papel Machê”). Com o Cicero e o Waly Salomão, “Zona de Fronteira”, “Memória da Pele”, “Holofotes”. Com Antônio Carlos Belchior, fizemos “Senhora do Amazonas”, inspirados em Villa-Lobos. É uma belíssima letra, e ele foi um grande parceiro. Com Nei Lopes, “Jimbo no Jazz”, em homenagem ao irmão dele. Edil Pacheco... São muitos os parceiros. Agora estou quase acabando uma (canção) com Lenine e Chico César. Está praticamente pronta.
Para a turnê de 80 anos no Brasil, como foi a escolha de repertório?
Toda a turnê tem um caráter retrospectivo. A ideia do repertório é escolher canções que representem com certa dignidade essa trajetória. Vai haver músicas de vários momentos da minha vida, notadamente canções minhas e do Aldir, que são canções definitivas. “Corsário”, que tem um novo registro produzido por João Marcello (Bôscoli) – você vê ali uma Elis inteiramente presente, uma cantora de agora. “O Canto da Terra Por Um Fio” (do álbum "Boca Cheia de Frutas", de 2024), minha e de Francisco Bosco, originalmente com arranjo de Jacques Morelenbaum, também estará, além de outras músicas que não são minhas, como o “Cio da Terra”. Essa música funciona quase como outra face do “O Canto da Terra Por Um Fio”, porque devemos mudar nossa relação de tratamento de visão da Terra. Não podemos ficar só extraindo da Terra, precisamos dar a ela alguma coisa. Em "Boca Cheia de Frutas", trago o canto das crianças Yanomami, em que cantam algo parecido com bonança, fartura. Agora, essa fartura está por um fio.
Além da turnê, você também tem dois álbuns a caminho: "Horda", já gravado ao lado da Orquestra NDR Bigband de Hamburgo, e "Amigos Novos e Antigos - João Bosco 80 anos". Como andam esses projetos?
O álbum de convidados é para celebrar a música brasileira. Vai ter amigos antigos, como Chico Buarque, Zeca Pagodinho, Caetano Veloso, e amigos novos, como Tiago Iorc. O título vem de uma canção que Aldir e eu fizemos, chamada “Amigos Novos e Antigos”. Já o álbum da NDR – o segundo que gravo com eles –, chama-se "Horda", nome de uma canção minha e do Francisco Bosco –, com arranjos do trombonista Rafael Rocha. Esse disco tem arranjos com grandes músicos de jazz, que resultam num disco bastante interessante. Tem uma leitura, por exemplo, de “Incompatibilidade de Gênios”. É um disco bem rico.
Finalizando com um retorno ao início. A primeira canção que você gravou, "Agnus Sei", já em parceria com Aldir, termina com o verso “o tempo vence toda ilusão”. Depois de 54 anos de carreira, como é a sua relação com o tempo? Ele venceu mesmo as ilusões?
Aldir era um especialista nessa reflexão. Ele escreveu esse verso, depois fizemos “Transversal do Tempo”, e ele ainda fez “Resposta ao Tempo”, com Cristóvão Bastos. Acho que realmente o tempo vence toda ilusão. O tempo não para de passar. Em um determinado momento, a gente sai desse plano em que vivemos para um outro que não conhecemos, mas o tempo continua a sua caminhada implacável em direção a um ponto que desconhecemos. Carlos Drummond de Andrade dizia que, quando um poema estava a caminho, sentia uma mudança na temperatura do corpo dele, um sinal de que alguma coisa ia acontecer. Essa mudança de temperatura que antecede o processo criativo tem tanto mistério quanto o tempo. A questão de que o tempo vence toda ilusão vem muito ligada ao amor e ao perdão. Vinicius era campeão de entender isso, de amar e de perdoar. Só perdoa quem ama. E quem ama perdoa. Acho que as duas formas significam praticamente a mesma coisa. E só o tempo pode trazer essa maturidade.•














