por_Eduardo Fradkin • do_Rio de Janeiro
Entre pedidos de uso de fonogramas ou regravações de músicas, os herdeiros e gestores dos catálogos de grandes artistas da música brasileira se ocupam de muitas outras funções, como colocar discos antológicos em plataformas digitais, gerenciar perfis em redes sociais, produzir livros, novos discos, exposições, webséries e documentários, e muitas outras manobras criativas para manter vivo o legado que lhes foi confiado. A Revista ouviu os guardiões das obras de Tom Jobim, Erasmo Carlos, Moraes Moreira e Raul Seixas, e todos compartilharam experiências semelhantes.
Há casos curiosos de pedidos de músicas para campanhas publicitárias, que foram refutados. Uma empresa de material de construção já quis pegar emprestada "Tente Outra Vez", de Raul Seixas, para convencer seus clientes de que comprar na concorrência era um erro e, de quebra, indicar o lugar certo para fazer a nova tentativa. Desde que foi lançada, "Pega na Mentira", de Erasmo Carlos, sempre foi cobiçada por candidatos políticos que queriam atacar seus rivais no horário eleitoral. A resposta negativa dos familiares desses artistas reflete uma crença comum: acima dos interesses comerciais, há uma missão ética e cultural.

Erasmo Carlos
"As solicitações mais frequentes são de 'Metamorfose Ambulante' e 'Tente Outra Vez'. Querem fazer gato e sapato com essas duas músicas! Pedem para mudar a letra. E eu digo: nem pensar!", conta Kika Seixas, ex-mulher de Raul e mãe de Vivian, uma das três filhas que o roqueiro teve. "Eu e Vivian trabalhamos juntas e, graças a Deus, as outras duas herdeiras, que moram nos Estados Unidos, compactuam com as nossas ideias. Em 90% dos casos, temos consenso. Uma delas é a Scarlet Seixas, que não fala português. A outra, Simone Seixas, é apegada à Vivian e confia muito nela. Esse respeito pela obra do Raul é compartilhado pelas três".
Kika equilibra a preocupação de preservar o espírito roqueiro de Raul e apresentar sua obra a novas gerações. Se atitude rock 'n roll estiver presente, adaptações são bem-vindas, como no caso do musical infantil "Raulzito beleza — Raul Seixas para crianças" ou mesmo um disco de um gênero pouco associado ao ídolo.
"Minha filha, Vivian, trabalha com música eletrônica e foi convidada, há algum tempo, a fazer versões eletrônicas de Raul. Ela colocou um groove diferente nas músicas, mas sem perder a sonoridade e a essência rock'n roll. Isso seria prostituir a obra do cara", pondera Kika. "Todo mundo toca Raul: artistas novos e antigos, o Raul é mais tocado hoje do que quando estava vivo. A arrecadação é enorme, para as três herdeiras e os parceiros dele.”
Por Vivian ter apenas oito anos quando Raul morreu, Kika atuou como sua representante legal na tomada de decisões sobre o catálogo do músico, e assume essa incumbência até hoje.
"O Raul tem obras que são filosóficas. Não posso deixar que deturpem a letra de uma música como 'Metamorfose Ambulante'. Eu o vi compor algumas músicas. Uma delas foi 'Por Quem os Sinos Dobram'. Não posso fingir que não existe uma verdade filosófica sendo cantada ali. Então, tenho que ser cuidadosa com as utilizações", justifica ela.
CRITÉRIOS BEM DEFINIDOS
Filho de Erasmo e empresário de Roberto Carlos, Leo Esteves comenta os critérios que emprega ao avaliar propostas e pensar seus próprios projetos relacionados com o trabalho do pai. Segundo ele, as duas faixas mais requisitadas são "É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo" e "Gente Aberta".
Talvez o mais bem-sucedido projeto fonográfico póstumo sobre o Erasmo tenha sido o álbum "Erasmo Esteves", cujas faixas surgiram de bilhetes, rascunhos e partes de músicas inacabadas garimpados no acervo do artista. Para as gravações, foram convidados nomes como Chico Chico, Emicida, Gaby Amarantos, Jota.Pê, Marina Sena, Russo Passapusso, Tim Bernardes e Xênia França. O resultado foi o prêmio de Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa no Grammy Latino de 2024.
"Quando a gente trabalha com o legado de alguém, há uma responsabilidade muito grande em relação à condução dessa obra. O que fazer, como fazer e por que fazer? Eu tento mostrar as diferentes facetas do Erasmo. Ele foi um artista multifacetado, e não apenas um roqueiro como algumas pessoas o rotulavam”, define Leo Esteves.
"Eu sempre levo em conta qual é o propósito daquela pessoa para cantar Erasmo. Se for um filme, em qual contexto será usada a música? Eu tenho um estilo de gestão muito carinhoso do catálogo. Dou respostas negativas quando sinto que as pessoas não têm um propósito alinhado com o que meu pai achava interessante. Obviamente, uso político é algo que eu nego, pois ele mesmo nunca fez qualquer tipo de liberação. Também já recusei proposta de uma empresa de bets (apostas online).Um caminho que eu considero perigoso na administração de um catálogo é ter uma visão estritamente comercial", afirma Leo, que vem produzindo discos dedicados ao repertório de Erasmo com interpretações de talentos da nova geração e, no momento, também prepara um documentário.
Responsável pela gestão do legado de Erasmo Carlos (incluindo as parcerias com Roberto Carlos, de quem é empresário), Leo Esteves divide essa tarefa com o irmão, Gil Eduardo. Os dois encabeçam um projeto cinematográfico para celebrar o pai.
"Nós estamos preparando um documentário sobre a vida do Erasmo, para o ano que vem. A Sony Pictures vai produzir. Estamos buscando diretor e fazendo curadoria do material", anuncia ele.
O desempenho póstumo do Tremendão nas telas é um capítulo à parte em sua biografia. No fim de 2024, quando foi lançado o filme "Ainda estou aqui", a música "É preciso dar um jeito, meu amigo", incluída na trilha sonora, estourou nas redes sociais e plataformas de streaming, gerando milhões de execuções. Recentemente, a mesma música figurou em outro produto audiovisual de enormevisibilidade.
OBRA VARIADA, PEDIDOS VARIADOS
O guitarrista Davi Moraes nunca foi procurado por anunciantes querepresentassem um dilema moral,masadministra uma obra igualmente diversificada, a de seu pai, Moraes Moreira, morto em 2020. Divide essa tarefa com a irmã Cecília e o meio-irmão Ari.
"Aparecem pedidos de gente de vários estilos, e não só de músicas que meu pai gravou como de composições dele que foram gravadas por grandes intérpretes. Há músicas que Gal (Costa), Cassia Eller, Ney Matogrosso e Marisa Monte gravaram e se tornaram sucessos. Tem muita gente nova que nos procura depois de descobrir a obra dos Novos Baianos, na qual a parceria do meu pai com (Luiz) Galvão foi muito forte", conta Davi.
Ele afirma que são muitos os pedidos para filmes, campanhas publicitárias e regravações de artistas:
“Meu pai tinha uma diversidade muito grande de estilos, e isso se reflete nos pedidos, que vêm de músicos dos mais variados gêneros. Nós, herdeiros, queremos que a música dele continue voando para todos os cantos do Brasil.”
Entre as ações de Davi que já decolaram, está a websérie Moraes Para Sempre Moreira, em seis episódios ("eu contei a trajetória dele sem um roteiro prévio, a partir das minhas recordações"), shows de tributo e o bloco carnavalesco Moraes Carnaval Moreira, que desfilou em Salvador entre 2022 e 2024.
Eu o vi compor algumas músicas. Uma delas foi 'Por Quem os Sinos Dobram'. Não posso fingir que não existe uma verdade filosófica sendo cantada ali. Então, tenho que ser cuidadosa com as utilizações.”
Kika Seixas, ex-mulher de Raul Seixas e corresponsável por seu catálogo"Eu e Moreno Veloso puxamos o bonde do Moraes Carnaval Moreira. Este ano, não fizemos. Mas o bloco vai retornar no ano que vem,para a celebração dos 80 anos do meu pai", adianta Davi, que começou cedo sua carreira na música, graças à influência paterna (leia na entrevista no pé da página).

Raul Seixas
Na capital baiana, há também o veterano bloco Moraes & Moreira, que, em março deste ano, tocou na cerimônia de inauguração de uma estátua do ídolo, instalada na Praça Castro Alves.
"Essa estátua sacramentou a história dele como o primeiro cantor de trio elétrico. Antes dele, os trios eram instrumentais", comenta Davi.
A irmã, Cecília, cuida do perfil de Moraes Moreira nas redes sociais e liderou uma iniciativa que, no fim de 2013, levou às plataformas digitais 14 discos do seu pai até então indisponíveis, incluindo os clássicos "Coisa acesa", "Mancha de dendê não sai" e "Tocando a vida". Mais recentemente, os três irmãos colaboraram com a realização da exposição"Mancha de dendê não sai – Moraes Moreira", quepassou por Salvador, Rio e Recife, atraindo grande número de visitantes.
HOMENAGENS AOS MESTRES
No ano passado, quando teria completado 80 anos, Raul Seixas também ganhou uma exposição retrospectiva. No próximo ano, o dono da maior efeméride será Tom Jobim, cuja discografia é tema de uma mostra atualmente em cartaz. O maestro faria cem anos em 2027.

Tom Jobim
"Temos a missão de mantervivo o legado dele. Temos o Instituto Antonio Carlos Jobim, no Jardim Botânico. Agora, está em cartaz uma exposição maravilhosa sobre os 12 álbuns da carreira solo dele", indica a viúva, Ana Lontra Jobim, que integra o conselho diretor do instituto e dirige a Jobim Music. "O instituto é da maior importância. Lá, temos o acervo físico dele, todas as partituras, os manuscritos, as fotografias, os prêmios. Está tudo guardado lá. O instituto tem um site que dá acesso a uma parte desse acervo.”
Assim como outros gestores de catálogos musicais, Ana e os demais herdeiros de Tom queencabeçam a Jobim Music impõem regras para autorizar o uso das músicas.
"O que ele fazia em vida, a gente aprova. O que ele não fazia, a gente recusa. Por exemplo, não aceitamos propagandas de bebidas alcoólicas e nem de cigarros. Em política, não queremos nos envolver. Além disso, recebemos muitos pedidos de versões, do mundo inteiro. Normalmente, eu evito autorizar. Mas isso depende de a música em questão ter algum parceiro de composição. Se houver um parceiro vivo, e ele ou ela aceitar, a gente não tem como negar. Mas quando é para fazer versão de uma música só do Tom, dependendo da língua, a gente nega. Já existem versões de músicas dele em várias línguas, como francês, espanhol e inglês. Mas tudo depende de como é feita a proposta. Sempre procuramos saber quem é o artista e que uso fará da música", explica ela.

Moraes Moreira
Se a expectativa por uma enxurrada de álbuns com versões internacionais de Tom Jobim parece improvável, o que virá, então, nas comemorações do centenário? Ana dá alguns spoilers.
"Estou fazendo a fotobiografia do Tom, para os cem anos dele no ano que vem. É uma pesquisa grande, que inclui o acervo todo do instituto (Tom Jobim) e de vários outros lugares, como o Instituto Moreira Salles e a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. O texto é a fala dele próprio. É todo em primeira pessoa, uma compilação de falas dele para contar a história de maneira livre e poética", revela ela, acrescentando que a Globo produz uma série documental, apresentada por Pedro Bial, para estrear no ano do centenário. •
“APRENDI COM ELE A TRABALHAR EM EQUIPE E TRATAR TODOS DE IGUAL PARA IGUAL”
Poucos dias antes de completar 53 anos, no último dia 16 de junho, Davi Moraes relembrou sua infância em conversa com a Revista. Seu pai, Moraes Moreira, estimulou-o desde muito cedo a levar a música a sério.
REVISTA UBC: Quais os maiores ensinamentos que seu pai lhe deu?
DAVI MORAES: Aprendi com ele a trabalhar em equipe, a tratar todos de igual para igual. Essa foi a maior lição, além da influência no meu jeito de tocar. Trabalhei e toquei com meu pai durante quase toda a vida. Eu já queria ser músico desde muito novinho. Ele sempre teve grandes guitarristas como parceiros, como meu padrinho, Armandinho, e o mestre Pepeu Gomes. Os caras de sopro que tocaram com ele também eram incríveis, como Leo Gandelman e Serginho Trombone. Teve os maestros Lincoln Olivetti, César Camargo Mariano, Chiquinho de Moraes e Cristóvão Bastos. Então, eu tive meu pai como grande mestre e também tive esses outros grandes mestres, que foram os parceiros dele.
Eles frequentavam sua casa? Você ia com seu pai aos ensaios e gravações?
Sim, eu acompanhava meu pai aos ensaios e ao estúdio desde muito cedo. Adorava ver essas feras de perto, tocando. Com seis ou sete anos, eu já queria ser músico. Já tinha certeza de que queria fazer isso na vida. Ele teve a sabedoria de trazer o cavaquinho para ser meu primeiro instrumento, por causa do tamanho da minha mão, naquela época. Depois, passei para a guitarra.
Quais lembranças guarda do início da carreira profissional?
Quando fiz 16 anos, tive as primeiras chances profissionais. Aos 17 anos, fui com meu pai ao Japão. Foi a primeira turnê internacional. Mas eu já subia ao palco com ele para fazer participações especiais nos shows, tocando cavaquinho, quando tinha sete ou oito anos. Aos 12 anos, toquei "Brasileirinho" no Rock in Rio de 1985.















