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ELAS SÃO

POP

Quem são as compositoras que ajudaram Anitta a conceber “EquilibriVM”, um álbum repleto de climas e estados emocionais — e com forte participação feminina

por_Fabiane Pereira do_Rio de Janeiro

Quem são as compositoras que ajudaram Anitta a conceber “EquilibriVM”, um álbum repleto de climas e estados emocionais — e com forte participação feminina

por_Fabiane Pereira do_Rio de Janeiro

Quando Anitta lançou “EquilibriVM”, ficou evidente que não era só mais um disco pop pensado para dominar playlists e redes. Tinha algo acontecendo ali: um projeto construído a muitas mãos, compartilhado por diferentes mulheres e vivências, diferentes formas de pensar o pop brasileiro contemporâneo.

Por trás das 15 faixas do álbum existe um verdadeiro mutirão criativo. Ao todo, 55 compositores participaram da construção de “EquilibriVM” em um formato de songcamp. Mas o que chama atenção é o perfil dos participantes — ou melhor, das participantes. São quase duas dezenas de compositoras de diferentes gerações, com predominância da nova cena musical nacional, artistas que circulam entre pop, R&B, funk, trap, soul, música alternativa e canção urbana contemporânea.

A lista de compositoras do álbum é extensa e inclui nomes nacionais e internacionais. Além das associadas UBC Anitta, Ana Clara Cenamo, Carolzinha, Ebony, KING Saints, Jenni Mosello, Lary, Liniker, Marina Sena e Melly, as também brasileiras Bárbar Dias, Elana Dara e Liliam Albuquerque dividiram os trabalhos com artistas de países variados, das colombianas Shakira e Daniela Otero à espanhola Ana Mancebo, da britânica Anne Dudley à venezuelana Sara Schell e à chilena Essa Gante.

Para além das consagradíssimas estrelas do pop internacional (como Shakira) e nacional (Marina Sena e Liniker), brilha uma série de criadoras que vêm ajudando a redefinir como o nosso mainstream pensa temas que estão na ordem do dia: vulnerabilidade, relação com o corpo, identidade, liberdade emocional. Falamos com associadas UBC que integram esse time tão especial para entender como se deu a dinâmica de construção coletiva.

Durante décadas, o pop feminino brasileiro foi construído a partir de olhares masculinos — produtores, compositores, empresários e diretores moldavam narrativas para as mulheres cantarem. Em “EquilibriVM”, acontece (quase) o contrário: Anitta parece cercada por mulheres que ajudam a construir, de dentro para fora, a subjetividade desse disco.

KING SAINTS

Entre os principais nomes desse timaço está KING Saints, um dos grandes destaques do projeto. Ela coassina sete faixas do álbum, incluindo “Desgraça” e “Choca Choca”. Participante do primeiro songcamp feminino promovido pela UBC, em 2024, essa artista da Baixada Fluminense pertence a uma geração de compositoras que transitam com naturalidade entre o pop e linguagens mais experimentais da música urbana contemporânea.

A artista conta que, desde o início, existia a sensação de que “EquilibriVM” seria um trabalho grandioso. E que a equipe criativa coordenada por Nídia Aranha teve um papel fundamental na construção conceitual do álbum, oferecendo direcionamentos que ajudaram a moldar sua identidade emocional e estética.

“Fomos munidas de muita informação para criar as músicas, e já existia a energia de um projeto gigantesco”, explica. “Sou uma grande consumidora da música pop. Não à toa, meus maiores trabalhos como compositora são com artistas pop. Então, essa fusão de pop e músicas urbanas sempre foi muito fluida para mim.”

Ainda assim, ela reconhece o peso de compor para a artista brasileira de maior projeção internacional da atualidade:

“Realmente, pensar que estamos falando da maior artista do Brasil, e o impacto que ela tem mundialmente, traz uma responsabilidade enorme. Mas o time era incrível, e estávamos confiantes de que daria certo. E deu!”

Ao falar sobre Anitta, KING Saints reforça algo que aparece repetidamente nos bastidores do disco: o nível de envolvimento da cantora em cada detalhe do projeto. “Não é à toa que a Anitta seja tudo o que é. Ela está em tudo, onipresente no projeto. Nas músicas, nos clipes, além de ser um gênio do mercado musical. Não dá ponto sem nó.” Para a compositora, participar de “EquilibriVM” foi também uma experiência de aprendizado profissional. “Foi um aprendizado para a vida a forma que ela orquestra tudo.”

JENNI MOSELLO

Outro nome central nessa engrenagem criativa é Jenni Mosello, que coassina cinco faixas do álbum. Jenni vem se consolidando como uma das compositoras mais sofisticadas da nova música pop brasileira justamente por conseguir equilibrar linguagem pop acessível com densidade emocional.

Admiro tudo o que Anitta fez como mulher, artista e latina. Nesse projeto, me senti sendo 100% eu mesma liricamente.

Ebony

Integrante do songcamp que deu origem ao álbum, ela mergulhou no universo de “EquilibriVM” ainda nas primeiras etapas de criação e guarda uma lembrança especialmente bonita da experiência.

“Eu já era fã da Anitta e fiquei muito mais depois de vê-la trabalhando de perto”, conta. “Certamente este foi um dos trabalhos em que fui mais bem tratada como compositora. Eles (os homens do time) sempre respeitaram muito o nosso trabalho, então fico muito feliz de ter feito parte.”

Para ela, o disco nasce de uma sensibilidade coletiva construída por mulheres criadoras. “Sempre gosto de estar cercada de outras mulheres na hora de criar e na vida de uma maneira geral. Adoro o feminino”, afirma. Mas a compositora amplia essa ideia para além das questões de gênero. “O feminino como uma maneira de pensar é muito sensível a tudo e muito criativo. Existe um cuidado muito grande com as coisas que fazemos, e acho que isso transparece na música.”

EBONY

Cada ser humano é um universo, mas, em muitos aspectos, os mundos de Ebony e Anitta se encontram. Nascidas em áreas periféricas do Rio de Janeiro, mulheres sensíveis a questões como misoginia e racismo, compositoras de gêneros urbanos (rap, funk), elas compartilham coisas, e isso ficou claro desde o início do processo de criação de “EquilibriVM”.

“Tenho identificação com o trabalho da Anitta e respeito também. Admiro tudo o que ela fez como mulher, artista e latina. Nesse projeto, me senti sendo 100% eu mesma liricamente, e isso foi muito maneiro”, lembra a artista, revelação do rap nacional no Prêmio Genius Brasil 2019, com três álbuns de estúdio lançados, e que participou da faixa “Vai dar Caô”, na qual pôde contribuir com a pegada rap-pop que marca seu próprio trabalho: “É uma mistura que sempre dá certo.”

MELLY

Melly representa outro movimento importante dessa nova geração de artistas brasileiras: a dissolução das fronteiras rígidas entre gêneros musicais. Cantora e compositora baiana, ela tem brilhado por misturar R&B, neo soul, MPB, pop e música afro-diaspórica com personalidade. Em “EquilibriVM”, além de assinar composições, também participa como feat em “Ternura”, música inspirada na orixá Oxum e uma das canções emocionalmente mais delicadas do trabalho.

A própria Melly contou, em entrevista ao site Mundo da Música, que a aproximação com Anitta aconteceu de maneira muito orgânica durante o processo criativo do álbum.

“Existia muita semelhança entre os temas, entre os assuntos que a gente estava querendo pincelar, tanto eu quanto a Anitta”, explicou, revelando que levou para os encontros composições inicialmente pensadas para seu próprio disco. “Foi um processo muito fluido e bonito, de entrega e sinceridade. Anitta estava muito conectada ao que vivia, ao que sentia e à mensagem que queria transmitir com esse disco, e a gente embarcou nisso junto.”

A cantora também reconheceu o impacto que participar de um projeto dessa dimensão teve em sua trajetória artística. “Se a gente for falar de números e alcance, eu tive um alcance que nunca tinha vivido, foi um salto. O público dela é muito maior, e isso abre caminhos. Eu só consigo ser grata por ter conseguido compor essas canções que fizeram sentido para ela e que agora vão chegar a muitas outras pessoas.”

LARY

Outro nome importante no disco é Lary, compositora já bastante consolidada no mercado pop nacional. Ela representa uma ponte interessante entre a geração anterior do mainstream brasileiro e essa nova cena mais híbrida, diversa e colaborativa. Ao longo dos últimos anos, a cantora e compositora de Niterói (RJ) ajudou a escrever sucessos para diferentes artistas e se tornou uma expert em transformar emoções cotidianas em linguagem pop acessível, sem perder autenticidade.

Em “EquilibriVM”, assina composições como “Ternura” e “Deus Existe”, canções que ocupam um lugar muito diferente daquele que ela própria explorou em “Maratona de Jogação”, faixa presente no projeto “Ensaios da Anitta”.

Terminou sendo uma composição a muitas mãos, com respeito e cuidado. Que a gente, quando viu pronta, disse: é isso. Funcionou. Não era para ser de outra maneira.

Ana Clara Cenamo

“Anitta, como uma das maiores intérpretes do nosso país, consegue transitar perfeitamente entre diferentes universos dentro da cena pop. E eu, como compositora, também consigo circular entre o pop, o funk, o pagode, o samba e o forró. Acho que essa versatilidade ajuda muito na criação de obras tão diferentes”, analisa.

Se “Maratona de Jogação” traz um universo mais festivo e expansivo, “Ternura” e “Deus Existe” surgem de um lugar mais introspectivo, conectado à espiritualidade. “São músicas muito mais ligadas à conexão pessoal e espiritual. Os processos foram muito diferentes entre si, mas todos foram muito especiais”, resume.

Para chegar a esse resultado, a compositora destaca a importância do mergulho criativo que antecede a escrita. Segundo ela, compor para um artista não significa apenas criar uma música, mas compreender profundamente o universo daquela pessoa. “O trabalho da composição não é simplesmente chegar e compor. A gente precisa estudar o universo que cerca o artista. Entender a forma como ele fala, as linhas melódicas que combinam com a voz dele e as mensagens que deseja transmitir”, afirma.

Mas a reflexão mais importante trazida por Lary está relacionada ao tema central desta reportagem: a visibilidade das mulheres que escrevem a música pop brasileira.

Durante muito tempo, o mercado destacou quase exclusivamente quem estava à frente do microfone, enquanto compositores e compositoras permaneciam nos bastidores. Para ela, esse cenário ainda existe, mas começa a mudar.

“O foco sempre esteve nas e nos intérpretes. Existe uma crença de que os artistas escrevem tudo sozinhos, e isso faz com que muita gente desconheça o trabalho dos compositores. Mas sinto que as coisas estão mudando. Os artistas têm falado mais sobre os bastidores e sobre a importância de quem participa da criação das músicas”, celebra.

CAROLZINHA (CAROLINA MARCÍLIO)

Na visão de outra compositora, Carolzinha, que cocriou faixas como “Caminhador” e “Mandinga”, intérpretes como Anitta não só valorizam o trabalho das compositoras. Também se misturam a elas, vibram na mesma onda. A cantora carioca atravessa uma fase de maior conexão consigo mesma e com temas ligados à espiritualidade, ao autoconhecimento e à forma como encara a vida, o que se refletiu no songcamp.

“Eu particularmente me encontro nesse mesmo lugar, por isso creio que o processo de criação para esse álbum foi tão fluido da forma que foi”, conta.

Carolina vê essa característica como uma das maiores forças da música pop. “O ser humano não é uma coisa apenas. Somos tantas versões maravilhosas em cada momento das nossas vidas”, afirma, citando estados mentais como introspecção, euforia, vulnerabilidade. “Posso dizer com orgulho que sei escrever um pouco de tudo e sobre tudo. Não existe um lugar emocional que eu não me proponha a acessar.”

A compositora, que já havia trabalhado com Anitta anteriormente em projetos como os “Ensaios da Anitta” e na faixa “Bota um Funk”, destaca a capacidade da artista de compreender exatamente qual história deseja contar em cada momento da carreira. “Existe uma trilha sonora ideal para cada momento, e nosso superpoder como artistas é saber entregar o melhor possível para cada um deles.”

ANA CLARA CENAMO

Se o clima de espiritualidade e vibrações lá em cima permeou grande parte do disco, talvez o nome que simbolize isso como nenhum outro seja o de Ana Clara Cenamo. A paulistana que divide com o marido, Renato Dias, o projeto Emanazul — referência da música de consciência, também chamada música de cura ou música-medicina, com mais de 300 mil ouvintes mensais só no Spotify — tem pouquíssima relação com o pop. Sua entrada no projeto, ao lado de Renato, foi curiosa.

“Nós costumamos dizer que nossa música é composta por cantos e mantras. Seguimos a linha do budismo tibetano, e um de nossos professores, um lama, esteve no Brasil ano passado. Fomos acompanhá-lo, tocando em encontros e retiros. Anitta soube dele e acabou querendo conhecê-lo. Como vínhamos fazendo, viajamos com ele para cantar, e foi ali que ela ela teve o primeiro contato com nosso trabalho”, lembra Ana Clara. “Tempos depois, voltamos a encontrá-la num momento em que fomos fazer um show no Rio. Até que, em janeiro deste ano, chegou o convite dela para que participássemos do camp.”

A base da música de que eles participam, “Ouro”, já existia, foi criada pelo produtor Carlos do Complexo. Quando Ana e Renato a viram, ela conta, disseram quase em uníssono: só há um mantra que encaixa perfeitamente aqui.

“É o mantra da Achi Chokyi Drolma (protetora do Dharma da escola Drikung Kagyu do budismo tibetano). Ela é considerada como uma Nanã, uma avó, uma protetora. Uma força mesmo. Assim como você fala em Maria, Iemanjá, Oxum, ela é uma força que tinha simplesmente tudo a ver com esse projeto, com essa pegada feminina”, descreve a compositora. “Terminou sendo uma composição a muitas mãos, com respeito e cuidado. Que a gente, quando viu pronta, disse: é isso. Funcionou. Não era para ser de outra maneira.”

ANITTA

Não era para ser sem tantas mãos, tantas vozes e tantas sensibilidades femininas juntas. A própria Anitta participou ativamente do processo na maioria das faixas, desmontando a ideia preguiçosa, surrada, de que intérpretes com o peso dela são só intérpretes — ou, pior, produtos do mercado. A cantora e compositora carioca esteve profundamente envolvida na construção conceitual, emocional e estética deste novo trabalho.

Anitta e suas “irmãs” compositoras vão ocupando, sem dúvidas, o centro da narrativa na indústria da música. Escrevendo para si, escrevendo para outras artistas, moldando linguagem, ditando comportamento. Durante muito tempo, a figura da compositora, seja do pop, seja de outros gêneros, permaneceu quase invisível no Brasil. Hoje isso vai mudando. E “EquilibriVM” é um retrato bem acabado dessa transformação.

JENNI MOSELLO, CAROLZINHA, LARY, KING SAINTS, EBONY, ANITTA, ANA CLARA CENAMO, MELLY
JENNI MOSELLO, CAROLZINHA, LARY, KING SAINTS, EBONY, ANITTA, ANA CLARA CENAMO, MELLY
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