
Num momento em que instabilidades no Ocidente levam o mundo a olhar cada vez mais para a China, um grande evento cultural pôs os holofotes em artistas brasileiros de diferentes estilos e gerações estes dias. Dentro das comemorações do Ano Cultural Brasil-China, sobre o qual falamos na última edição da Revista, membros da nossa associação como Adriana Calcanhotto, Hamilton de Holanda, Felipe & Manoel Cordeiro, Jonathan Ferr, Josyara, Luedji Luna e Orquestra Neojiba estrelaram apresentações lotadas em Xangai e Pequim, em abril e maio.
A maior parte dos shows ocorreu dentro do JZ Spring Festival, em Xangai, um dos principais eventos da música contemporânea na Ásia. Ao ar livre na orla marítima da capital econômica chinesa, em praças públicas ou dentro de edifícios emblemáticos, os artistas brasileiros tiveram uma acolhida carinhosa ao longo de quase dez dias, mobilizando o público local e a comunidade brasileira residente por lá.

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Um relatório publicado pela iniciativa independente Fair Play indica que apenas 36% dos royalties gerados pela execução de músicas em clubes chegam aos titulares corretos. Em outro recorte do mesmo levantamento, os dados apontam que cerca de 71,6% das taxas de licenciamento pagas por boates deixam de ser direcionadas aos criadores das obras. O desvio na arrecadação é atribuído, principalmente, a falhas na identificação do repertório tocado e à ausência de metadados completos que liguem a execução pública ao registro original da faixa.
Os indicadores globais ajudam a dimensionar um problema estrutural que se repete no mercado brasileiro. A forma como a música eletrônica circula, sobretudo em clubes, festas e festivais dedicados ao gênero, desafia um sistema de distribuição que depende da identificação exata de cada fonograma. Essa exigência legal e técnica nem sempre se mostra compatível com o formato de apresentação dos DJs.


Suno e Udio, você sabe, são as duas mais famosas plataformas de geração de música por IA. Como tudo que envolve essa tecnologia disruptiva, têm luzes e sombras. Por um lado, podem ajudar criadores musicais em apuros a encontrar aquela rima, a lapidar um acorde ou dar o toque que faltava naquela introdução. Mas também vêm sendo usadas para criar, do zero e a partir de meros comandos de texto, gigantescas quantidades de "música" que, depois, despejada nas plataformas de streaming, fica com boa parte dos royalties que deveriam ir para compositores de verdade. Sobretudo, as duas usam obras humanas varridas sem licença para treinar os seus sistemas e, depois, gerar algoritmicamente as "canções" que competirão com os mesmos autores das obras que foram apropriadas ilegalmente.
A Suno, maior delas, está prestes a fechar uma rodada de captação de investimentos da ordem de US$ 250 milhões (R$ 1,23 bilhão), o que lhe daria um valor de mercado superior a US$ 5 bilhões (R$ 24,6 bilhões). Já a Udio vem fechando licenças com players grandes do mercado e vendendo assinaturas de até US$ 30 mensais. Tudo às custas dos autores das obras que usam livremente.
A Tencent Music Entertainment passou anos consolidando sua posição dominante no gigantesco mercado de streaming musical chinês, reinando quase sozinha até acumular a impressionante quantidade de 556 milhões de usuários únicos mensais no final de 2024. Tal número ficava atrás só dos mais de 675 milhões do Spotify. Um acúmulo de desafios recentes começa a ameaçar essa hegemonia. E a maneira como a Tencent responde a eles está sendo acompanhada de perto pelas plataformas ocidentais.
O maior desses desafios é uma concorrência feroz com o ecossistema TikTok. A poderosa ByteDance, dona do TikTok (que na China se chama Douyin), vem roubando cada vez mais usuários dos três apps da Tencent (QQ Music, Kugou Music e Kuwo Music) através da sua plataforma de streaming Soda Music. Desde o auge, no final de 2024, a Tencent encolheu para 528 milhões de usuários mensais (-5%), enquanto a Soda Music disparou 11%, de 140 milhões para 156 milhões.
É nas experiências únicas que a Tencent vem apostando para superar a ameaça da Soda Music. O foco da gigante chinesa será nos superfãs, criando toda uma estrutura própria para poder dar a eles algo único, principalmente no ambiente real, offline. Paralelamente, a Tencent vem ampliando o tom das denúncias contra as concorrentes, acusando-as de inundar seus próprios catálogos com música criada por IA, de maneira fraudulenta, para poder ultrapassá-la.
